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Coluna Resgate – “A balada de John & Yoko”

A sociedade como um todo comprou e repetiu a ideia de que a narrativa judaico-cristã coloca as figuras femininas como culpadas e traidoras. As histórias mais lembradas para sustentar tal afirmação são as de Sansão e Dalila e, principalmente, de Adão e Eva. Nesta última, que seria o início de tudo, a mulher é quem, instigada pelo diabo, convence o homem a pegar o fruto proibido. Ele atende e, a partir daí, dá-se a desgraça da humanidade.

Há, no entanto, uma má interpretação do fato, que vai consequentemente levar a um entendimento errôneo da Bíblia, imaginando que o Livro Sagrado de fato apresente a figura feminina como a causa das tragédias e sofrimentos. Na verdade, isso não condiz com toda a revelação e entendimento trazidos no Novo Testamento.

Paulo fala, em todas as suas explicações acerca do pecado, de Adão como aquele por meio de quem o ser humano “caiu”. Ele não cita a figura de Eva como maligna ou causadora do mal. Além disso, a história do cristianismo se baseia em outra traição: aquela para com Jesus. E quem o traiu não foram as mulheres — sempre presentes e amáveis –, mas um homem.

Mesmo que não seja a realidade, a figura de Eva passou a ser utilizada como metáfora para para as mais diversas situações, da política (Thereza seria a responsável pela briga entre os irmãos Collor) ao esporte (a família Senna acusando Adriane Galisteu pelo estado de Ayrton pré-corrida), passando até mesmo pela guerra do tráfico (Danúbia, Nem e 157). Uma das analogias mais presentes é com Yoko Ono: a esposa de John Lennon teria sido a culpada pela separação dos Beatles.

“Ela passou a fazer parte do grupo sem fazer nada”. “Estava todo dia no estúdio”. “O Lennon se desinteressou pela banda”. “Eles não tinham mais privacidade”. Mesmo que Paul, George e Ringo jamais tenham usado isso como desculpa, essa é a versão oficial para muitos fãs e para os apreciadores em geral.

Como num casamento que termina em divórcio, não se pode culpar somente um dos lados (neste caso, quatro) por uma separação: essencialmente, os Beatles se separaram por duas razões: 1) o desgaste natural que acontece após quase uma década de convívio intenso e diário; 2) os diferentes objetivos musicais de cada um, já não mais em sintonia.

No entanto, se houve UMA pessoa com “responsabilidade maior” pela dissolução do grupo, não foi Yoko Ono, não.

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Em entrevista no final de 1971, questionado sobre a influência de Yoko na separação do grupo, Harrison faz algumas brincadeiras, mas é direto: “não, não… nós já tínhamos problemas antes de ela aparecer”. Olhando diretamente para a câmera, ele enfatiza: “MUITOS problemas”.

Naquele mesmo ano, Harrison promoveu o famoso “Concerto para Bangladesh”. Vários artistas participaram, dentre eles Eric Clapton, os Stones e… Ringo Starr. O baterista dos Beatles foi responsável pelo instrumento no show e ainda interpretou a canção autoral “It don’t come easy”.

Nas gravações de seu terceiro disco, em 1973, Ringo convidou… John Lennon para participar da gravação e mixagem da faixa “The Greatest”. Mais sintomático ainda, Harrison participou da gravação do álbum “Imagine”, de John Lennon, na faixa “Oh my love” escrita para… Yoko Ono. Yoko e George dividem os estúdios, novamente.

John e Ringo, Ringo e George, George e John… Faltava alguém, não?

Lennon, Harrison e Starr ainda tinham afinidades, mas Paul McCartney estava em outra vibe, com projetos muito diferentes, com perspectivas distintas. Comprometido com os Wings, ele finalmente podia realizar seus desejos tanto musical quanto artisticamente: transitava do experimentalismo de RAM à espalhafatosa abertura de “James Bond”.

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A partir de 1966, após o famigerado show no Candlestick Stadium, a banda deixa de fazer as apresentações ao vivo. Segundo Ringo Starr, “O John tinha mais vontade de desistir do que os outros. Ele disse que já tinha sido o bastante“. Ainda não havia Yoko Ono na vida da banda, e este era o cenário.

A partir dali, os Beatles só fariam aumentar sua lenda, com a explosão criativa que culminou em alguns dos melhores e mais revolucionários discos da história da música pop. Paul McCartney, porém, não estava totalmente convencido de que os Beatles se tornariam artistas reclusos, dedicados à música.

Em 1967, surge ”Magical Mystery Tour”, como a dar sequência aos estrondosos sucessos ”Help!” e ”A Hard Day’s Night”. Mas a produção se revela um fracasso de público e crítica, por não haver um roteiro minimamente estabelecido e por trazer conceitos mirabolantes demais.

A ideia, idealização e ‘direção’ do filme foi de… Paul McCartney. Era visível o deslocamento e até certo constrangimento de Starr e Harrison; Lennon, por sua vez, adotou o sarcasmo como forma de reação. Nos bastidores, já dizia-se que era uma tentativa de McCartney se tornar o líder da banda.

Outra situação bastante emblemática é a criação do selo Apple (uma maçã?!). Concebida após a morte de Brian Epstein, lendário empresário do grupo, e com início a partir do supracitado filme, a Apple Records precisava tomar níveis profissionais.

Surge, então, a possibilidade de contratar Allen Klein, manager dos Rolling Stones. John, George e Ringo concordaram no nome. Paul, não: ele queria que o manager fosse… Lee Eastman, seu sogro.

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Mas quando foi que se tornou perceptível que a ruptura da banda era questão de tempo? Na viagem à Índia, começo de 1968, período de concepção do Álbum Branco.

Dos 4, George Harrison era o que mais estava levando aquilo tudo a sério, futuramente se convertendo ao hinduísmo e adotando diversos aspectos culturais indianos. John Lennon, um homem que sempre pareceu em busca de respostas, também decidiu ficar por lá. Ringo, que já sofria de problemas no estômago, não aguentou mais que duas semanas no país asiático e foi embora.

McCartney, por sua vez, não via na visita à ex-colônia inglesa a chance de uma reconexão espiritual, mas sim a oportunidade de mais composições e ideias comerciais — nas filmagens, ele é o único que parece realmente preocupado com a presença das câmeras.

Paul retornou à Inglaterra uma semana depois de Ringo, enquanto George e John lá permaneceram por algum tempo. Para Lennon, “foi ali, quando eles foram embora e George e eu ficamos, que começou a morte lenta”.

Se a viagem foi como um paciente que entra em estado terminal, a eutanásia aconteceria nas gravações de “Let it be”.

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Era visível, já a partir do álbum “Help!”, que George Harrison queria seu espaço como compositor. Até então, em quatro discos, ele tivera apenas a chance de ser intérprete — e em apenas uma canção por lançamento.

Ótimo letrista e exímio músico, George era limitado pela dupla Lennon&McCartney que, embora raramente compusessem juntos de fato, dominavam as faixas.

Na segunda metade da década, Harrison tinha dezenas de músicas prontas e queria incluí-las nos discos, mas McCartney muitas vezes argumentava que tal letra ou tal melodia não se encaixavam naquele projeto — ele só podia incluir uma média de duas por álbum.

Em um dado momento da gravação de “Let It Be”, George, esgotado, decide dar um basta na situação confronta McCartneyl:

– “George, acho que você deveria tocar assim, e não desse jeito”, diz Paul.
– “Ok, Paul, diga como você quer e eu farei o que você mandar. Se não quiser que eu toque, eu não toco nada”.

Há registros de outros momentos em que Paul dá “sugestões” sobre como as sessões deveriam ser filmadas, sobre qual deveria ser a disposição da banda etc. Era, novamente, ele tentando levantar ou comandar o grupo.

Mas já não havia mais tempo.

Cronologicamente realizado antes, “Let It Be” sairia depois do mítico “Abbey Road” e se eternizaria como o último disco dos Beatles.

A banda já havia acabado, tecnicamente, embora tivesse compromissos profissionais a cumprir, e alguma agenda. Mas uma notícia explode no dia 10 de abril de 1970: McCartney saiu dos Beatles.

Foi assim que “o sonho acabou”.

Se John fora responsável por formar o grupo, Paul não poderia ficar sem essa glória.

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O pecado original, ao contrário do que se crê, não é a aproximação da árvore do conhecimento, nem apanhar o fruto proibido, tampouco comê-lo: o pecado foi a busca de se tornar igual a Deus.

Foi esse, pois, o equívoco de Paul McCartney.

PS: A canção ”The Ballad of John & Yoko” foi lançada em 1969 e tinha um refrão profético: ”Do jeito que as coisas estão indo, eles irão me crucificar”

Marcel Pilatti é paranaense. Professor e escritor, é sobretudo um apaixonado por arte e esportes. Na coluna ‘Resgate’, o autor abordará fatos e personagens que marcaram a história, mas que precisam ser revistos”.

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