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Coluna Resgate – A maior fila do futebol brasileiro

“O Corinthians ficou 23 anos sem conquistar títulos”  e “essa é a maior fila dentre os clubes grandes do futebol brasileiro”.

Você, caro leitor, já escutou alguém falar, já leu a respeito ou mesmo já assistiu a documentários ou quadros de programas televisivos relembrando tal história, correto?

Porém… essa é, na verdade, uma das maiores falácias de todos os tempos, talvez a maior já contada no âmbito esportivo. O Corinthians não ficou 23 anos “na seca”, tampouco é do alvinegro do Parque São Jorge o mais longo jejum dentre as equipes mais tradicionais do Brasil.

Mas não se decepcione: a perpetuação dessa verdade não é falha em pesquisa ou na memória. É a própria diretoria e grande parte da torcida corinthiana que fomentam tal afirmação,  inclusive com o objetivo de criar uma mística em torno do clube — tudo é mais difícil, tudo é mais sofrido — e, de quebra, lucrar.

O erro começa com uma distorção numérica: foram 22 anos, 8 meses e 7 dias, já que o título de 1954 só seria celebrado em fevereiro do ano seguinte. De todo modo, o fato é que o Corinthians jamais ficou essas mais de duas décadas longe de troféus e conquistas.

Foram, ao todo, 20 os títulos que o Corinthians celebrou entre 1955 e 1977. Eis a lista:

Torneio Internacional Charles Miller (1955)

Copa do Atlântico de Clubes (1956)

– Taça dos Invictos (1956)

Torneio de Classificação do Paulista (1957)

– Taça dos Invictos (1957)

Torneio de Brasília (1958)

– Taça Charles Miller (1958)

Troféu Lourenço Fló Júnior (1962)

– Taça Estado de São Paulo (1962)

Pentagonal do Recife (1965)

Copa Cidade de Turim (1966)

Torneio Rio-São Paulo (1966)

Triangular Otávio Lage (1967)

– Taça Piratininga (1968)

Torneio Costa do Sol (1969)

Troféu Apolo V (1969)

– Torneio do Povo (1971)

– Torneio Laudo Natel (1973)

Copa Cidade de São Paulo (1975)

– Copa Governador do Estado (1977)

Feita a lista, é preciso antes ponderar.

Quatro desses títulos são apenas simbólicos (Invictos, Classificação e Piratininga), premiando fases ou sequências de jogos; outra conquista (1977) se refere na verdade ao título que levaria à finalíssima — algo como a Taça Guanabara, no RJ; uma outra teria importância técnica e histórica gigantescas, mas o título não foi decidido diretamente (Atlântico).

Outros cinco títulos (1955, 1966, os dois de 1969 e 1975) contaram com grandes equipes internacionais, mas eram apenas amistosos — algo como o Ramón de Carranza, conquistado pelo clube em 1996 e celebrado à época; há também disputas amistosas contra os rivais  (1958 e 1962) e torneios festivos interestaduais (Brasília, Recife e Goiânia). Sobra ainda o Rio-SP, que era importantíssimo e consta nas listas oficiais, mas o título foi dividido em quatro equipes.

Nenhum desses, portanto, merece consideração além do dado estatístico.

No entanto, há três remanescentes nessa contagem que foram, sim, relevantes e merecem uma análise mais minuciosa (Em grau de importância, veremos o inverso da ordem cronológica).

3o. lugar: 1973, Laudo Natel 

De certa maneira, é possível fazer uma comparação com o valor que os estaduais possuem hoje: era oficial, organizado pela Federação Paulista de Futebol, em homenagem ao então Governador do Estado, e acontecia antes do início das duas maiores competições da época.

A disputa abrangeu diversas equipes do estado de São Paulo [ao todo, participaram 18 clubes], teve diversos enfrentamentos [tivemos 23 partidas] e contou com uma duração de mais de 40 dias [início em 21/jan e final em 3/mar]. Além disso, superar os maiores rivais na fase final é sempre algo importante. Confira a tabela e os resultados no site da RSSSF.

A presença de público também foi interessante — na final, disputada no Morumbi, tivemos quase 37 mil pagantes — e a premiação aos jogadores não era desprezível: cada corinthiano recebeu Cr$ 14.000, o equivalente a R$ 70 mil em 2018. A coincidência: era um sábado de Carnaval. A torcida celebrou bastante, como informou a Folha de S. Paulo no dia seguinte.

Era sim um título importante, tanto é que a conquista chegou se tornar pôster da revista PLACAR, e seria eternizada para torcedores através das figurinhas do lendário chiclete Ping-Pong.

Ao todo, aconteceram 4 edições do torneio, entre 1972 e 76 (não ocorreu em 1974). Palmeiras (72), Santos (75) e Portuguesa (76) foram os outros vencedores e mencionam com algum destaque tais títulos em seus sites em matérias históricas.

2o. lugar: 1971, Torneio do Povo

Era um momento de grandes mudanças no futebol nacional: o Campeonato Brasileiro com essa nomenclatura e desígnio se iniciava naquele ano, e as equipes do país começavam a se dedicar mais à Libertadores — campeão e vice do certame nacional passariam a assegurar vaga no torneio continental.

Havia então uma efervescência por grandes disputas, uma vez que o calendário começava a ficar enxuto. Foi criado, então, o Torneio Emílio Garrastazu Médici, presidente do Brasil, competição popularmente conhecida como Torneio ou “Taça do Povo”. A organização,  embora com aval da CBD, foi do clube mineiro.

A alcunha veio de um fato simples: no certame estariam reunidos os times com maior torcida nos principais centros futebolísticos do país: Flamengo, Atlético-MG, Internacional e Corinthians. Em suma, mesmo índice técnico e prestígio da versão anos 90 do Torneio Rio-São Paulo. Confira a tabela e os resultados no site da RSSSF.

A conquista veio e foi relevante. O Jornal do Brasil (RJ) de 20 de fevereiro de 1971 conta sobre a volta olímpica dos jogadores Corinthianos e dos aplausos da torcida mineira, além de destacar a presença de Médici,  quem entregou o troféu.  O Estado de São Paulo fala sobre a “grande celebração no vestiário” e grafa: “primeira grande conquista do Corinthians nos últimos 16 anos”.

A Folha de S. Paulo, por sua vez, não fez longas reportagens sobre o título. Mas deu capa.

O torneio teve mais duas edições, nos anos posteriores, contando com Flamengo (1972) e Coritiba (1973) como campeões. O time carioca menciona a conquista, mas não lhe dá destaque. Já o clube do Paraná a tem como sua segunda maior glória, somente abaixo do Brasileiro de 1985: a agremiação paranaense chegou a pleitear reconhecimento de “título nacional” junto à CBF…

1o lugar: 1962, l Taça São Paulo

É preciso sempre analisar o contexto quando se estuda história. Se os torneios supracitados foram criados porque era um momento de ampliação de calendário nacional, coincidindo com uma gradativa diminuição do poder das federações estaduais e centralização na confederação brasileira, este certame nasce num momento em que o país todo se concentrava para a Copa do Mundo.

[Em 1966 essa situação chegava ao patamar de insustentável, acontecendo a total paralisação do Rio-São Paulo (o Corinthians foi um dos campeões,  não se esqueçam!) e pela primeira vez a não presença de um clube brasileiro na Taça Libertadores da América].

No ano de 1962, aconteceram duas disputas — não relacionadas entre si, vale ressaltar — muito relevantes e almejadas: o Campeonato Sul-Brasileiro, vencido pelo Grêmio, e a Taça Estado de São Paulo, ou simplesmente Taça São Paulo. Ambos os certames eram oficiais e regidos pelas federações dos respectivos estados.

Porém, não tiveram sequência imediata [a Taça SP, nesse formato, se repetiria em 1973, e o certame sulista em 1999], o que talvez explique seus “sumiços” da memória coletiva.

A I Taça SP foi, talvez, a mais democrática competição já realizada no estado de São Paulo: muito semelhante à Copa do Brasil atual, reuniu times de todo o estado, e de ambas as divisões. A fórmula de disputa foi o tradicional ‘mata-mata’, com jogos de ida e volta, reunindo um total de 32 clubes: 1ª rodada, oitavas, quartas, semi e final. A duração do torneio também caracteriza sua importância: entre a abertura e a final, mais de dois meses. Confira a tabela e resultados clicando aqui.

Folha de S.Paulo, 22 de junho de 1962

No dia da decisão, nada menos que trinta e cinco ônibus saíram de São Paulo rumo a Santos, levando torcedores do Corinthians. Será que não valia nada?…

O “Estadão” do dia seguinte dedica uma página completa sobre a decisão, com uma série de matérias noticiosas (o árbitro, a partida, a excursão sequencial do Santos) e analíticas.

No texto “Corinthians: pouco êxito em oito anos” há um resumo da história do clube e das perspectivas de novos ares tanto administrativa quanto esportivamente, por conta da vitória na Taça São Paulo: “(…) a conquista da Taça foi comemorada ruidosamente ontem à noite, no Parque São Jorge, numa festa que não ocorria há oito anos. Estiveram presentes até escolas de samba”.

O Estado de S. Paulo, 22 de junho de 1962

“Revista do Esporte” — edição de 15 de dezembro de 1962 –, publicação mensal da época que fazia um apanhado esportivo das equipes, descreve, no artigo “O Corinthians é o maior”, as maiores glórias do clube. Sobre a I Taça São Paulo, descreve: “Outra façanha da qual o Corinthians muito se orgulha é a de ter conquistado a Taça, certame realizado este ano nos moldes dos grandes torneios realizados em gramados europeus. O título e o troféu muito envaidecem os mosqueteiros”.

revista do esporte nº 197, de 15 de dezembro de 1962

Revista do Esporte, nº 197

Portanto, como se diz, a história não mente.

***

Como visto, sendo muito criterioso, pode-se dizer que o Corinthians ficou 11 anos (de 62 a 73) sem títulos de competições diretamente organizadas por entidades ligadas ao futebol, e que ao todo foram quase 23 anos sem conquistas amplamente ambicionadas e/ou de grande repercussão nacional, justamente porque estavam em suas edições inaugurais.

Tudo isso, na verdade, não pesa contra o clube mas sim a favor do Paulistão, que à época tinha praticamente a mesma força que hoje tem o Campeonato Brasileiro — e, sim, é possível dizer que os estaduais eram até mais buscados do que o certame nacional.

Exagero? De forma alguma. Tanto é assim que o Botafogo é alvo de gozações dentre os torcedores cariocas, e boa parte do Brasil, por ter ficado 21 anos sem títulos. Mas na verdade são 20 anos [19 anos e 8 meses, aliás], pois a Taça Brasil foi conquistada em 4 de outubro de 1969. Os 21 anos se referem ao jejum de títulos… cariocas.

Botafoguenses também lucram com sua ”fila”.

No Paraná, o Coritiba celebra o seu título estadual de 1999 após 10 anos sem título, mas o torcedor ‘coxa-branca’ comemorou e muito a conquista do Festival Brasileiro de Futebol, dois anos antes. Teve até invasão de campo. A década em branco, portanto, se referia ao campeonato paranaense.

Outro clube que, injustamente, enfrentou gozações por gozações dos rivais por uma suposta seca de títulos foi o Bahia. Quando da final do estadual de 2011, conquistado pelo Vitória diante do rival tricolor, a torcida rubro-negra cantou ”Parabéns” e ainda levou bolos ao estádio e numerais ’10’ em alusão ao período de uma década sem conquistas no campeonato baiano [haviam sido campeões em 2001].

Porém, uma pesquisa simples indica que o Baêa ganhou a Copa do Nordeste de 2002, diante do… Leão.

2002 a 2011 é igual a 9, não?

Fenômeno contrário aconteceu com o Grêmio,  recentemente: quem não se lembra da dancinha do jogador Sasha, ex-Inter, simulando uma valsa por supostos 15 anos de fila do rival? Acontece, porém, que o Grêmio venceu três campeonatos estaduais, além de um Brasileiro Série B, nesse interim.

Mas se não é do Corinthians [e nem do Botafogo, tampouco do Grêmio], a quem pertence a maior fila do futebol brasileiro?

Outros dois jejuns são bastante lembrados e mencionados: Palmeiras e Santos.

O maior rival corinthiano celebra o dia 12 de junho de 1993 como um dos mais importantes de sua história — era o título estadual daquele ano, o último datando de 1976. Já o clube do litoral paulista é lembrado pela conquista do campeonato brasileiro de 2002, que veio após o Paulista de 1984.

Algo permanece errado, afinal, a fila do Palmeiras é de 17 anos [sem nenhum título oficial, apenas alguns torneios amistosos internacionais, configurando um jejum oficial maior que o do Corinthians, portanto] e a do Santos durou 18 — e aqui é importante ressaltar que a do Santos é de apenas 13 anos (levou o Torneio Rio-São Paulo em 1997) ou, forçando a barra, de 14 (pois conquistou a Copa Conmebol de 1998).

Mas o Paulista ficaria 22 anos sem vir — só ganhou novamente em 2006.

O Santos Futebol Clube, porém, viveu fases muito mais amargas: até o surgimento de Pelé e do esquadrão que dominaria o futebol paulista (9 estaduais em 12 anos), sudestino (3 Rio-SP), brasileiro (pentacampeão da Taça Brasil e um título do Robertão), sul-americano (bicampeonato da Libertadores e mais duas semifinais) e mundial (2 intercontinentais e a recopa), o Santos era mero figurante.

O Paulista de 1955 foi o segundo da história do clube. O anterior acontecera em 1935. Num exercício simples, entre sua fundação, em 14 de abril de 1912, e a primeira conquista, em 17 de novembro de 1935, se foram 23 anos, 7 meses e 3 dias. Depois, outras duas décadas na seca.

Um Paulista em 43 anos. E então surgiu um rei…

Marcel Pilatti é paranaense. Professor e escritor, é sobretudo um apaixonado por arte e esportes. Na coluna ‘Resgate’, o autor abordará fatos e personagens que marcaram a história, mas que precisam ser revistos”.

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