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Coluna Resgate – “Campeões ou não?”

Clube de Regatas Flamengo, Sociedade Esportiva Palmeiras e Sport Club Corinthians Paulista — aqui a ordem é alfabética — são três das mais importantes equipes da história do futebol brasileiro.

Torcidas presentes e fanáticas, são também vitrine principal de questionamentos dos rivais para suas conquistas. E cada um deles vê um de seus títulos em especial serem contestados de forma incessante. Não falo de títulos considerados como roubados por torcedores adversários: a torcida do Galo fala da Libertadores de 1981 como a vergonha maior do futebol brasileiro; Colorados relembram os jogos anulados no Brasileiro de 2005 para dizer que aquele título é deles; e os palmeirenses são acusados de terem saído da fila em 1993 com uma conquista fruto do ”esquema Parmalat”. Tudo bobagem.

Iremos falar, aqui, de três títulos grandiosos das referidas equipes. Coincidentemente, todos os troféus foram erguidos no Maracanã, maior templo do futebol brasileiro. No entanto,  os três são questionados não pelo que aconteceu dentro de campo, mas fora dele: a chancela ou não das instituições que comandam o futebol nacional e internacional.

Falo do Palmeiras e a Copa Rio de 1951; do Flamengo e a Copa União de 1987; e do Corinthians e o Mundial de Clubes de 2000 — e desta vez a ordem foi cronológica.

 

Maracanã, 22 de julho de 1951 – 100.093 pessoas
Palmeiras 2×2 Juventus-ITA (3×2 no agregado)

”Não tem Mundial”

É o maior meme das redes sociais. Pode ser um vídeo que aparentemente denunciaria carne estragada ou então uma conversa entre amigos: no final surge um bilhete, um comentário, uma mensagem: “O Palmeiras não tem Mundial”. Essa discussão arrasta décadas e se intensificou de modo tamanho justamente após a conquista corinthiana de 2000: afinal, o formato é praticamente o mesmo e o tamanho dos adversários, também.

Acima e antes de qualquer coisa, há que se pensar no porquê da realização do torneio. Após a amarga derrota na Copa do Mundo de 1950, o sentimento brasileiro foi ferido. A auto-estima do cidadão (é a partir daí que Nelson Rodrigues cunha o até hoje usado termo “Complexo de vira-latas”) e, principalmente, do torcedor, é atacada.

Assim, se idealiza uma competição reunindo clubes de vários países, alguns deles presentes na última Copa. Algumas equipes recusaram o convite, mas o modelo não foi afetado, e em termos técnicos foi uma disputa extremamente relevante.

O Palmeiras era uma equipe recheada de craques, especialmente Jair da Rosa Pinto, um dos que participaram do triste episódio do Maracanazzo. Para ele e tantos torcedores, foi uma redenção.

O grande problema é o mesmo que vai afetar a conquista flamenguista de 1987: o reconhecimento do título por parte da entidade máxima. A FIFA já reconheceu, desreconheceu, mudou de ideia, teve opinião diferente, e voltou atrás.

O curioso é que, se os palmeirenses carecem do reconhecimento da Federação Internacional, pela entidade nacional foram agraciados: a CBF unificou, ao final de 2010, os títulos palmeirenses na Taça Brasil e Roberto Gomes Pedrosa e a equipe passou de 4 para 8 Brasileiros à época. Assim, o torcedor que, no gol de Rivaldo em 1994, comemorava o quarto Brasileirão, em 2016 comemorou o “eneacampeonato”.

É uma contradição em si, e de certa forma é o que alimenta tantas piadas. Talvez o palmeirense devesse seguir o conselho de Tostão e entender que o que foi conquistado gozação nenhuma pode diminuir, e carimbo nenhum lhe dá mais credibilidade.

O Palmeiras, enea ou penta brasileiro, é o maior vencedor de títulos nacionais. E sendo “mundial” ou não, é de fato o primeiro campeão de um torneio reunindo Europa e América do Sul.

 

Maracanã, 13 de dezembro de 1987 –  91.034 pessoas
Flamengo 1×0 Internacional (2×1 no agregado)

”87 é do Sport”

O argumento principal é de que a CBF, entidade máxima do futebol brasileiro, não reconhece o Flamengo como campeão brasileiro de 1987, e sim o Sport Club do Recife. Aquele foi um ano em que o certame principal (chamado Copa União) não foi organizado pela referida instituição e sim pelos próprios clubes principais, dando origem ao chamado Clube dos 13.

O título do Flamengo é tecnicamente incontestável: segundo melhor classificado na primeira fase, derrotou o Atlético-MG nas semifinais e o Internacional na Finalíssima. Uma equipe com craques como Bebeto, Renato Gaúcho e Zinho, além do eterno Zico, não pode ser desprezada em qualquer conversa minimamente séria.

Mas a contestação principal se dá, além da eterna disputa judicial (e recentemente o STF — hein??? — decretou o Sport como campeão) normalmente favorável ao Sport, na base de uma falácia: o Flamengo teria se recusado a enfrentar o campeão da segunda divisão, e este confronto estaria previsto desde o início.

Nem uma coisa nem outra: 1) a CBF recusara a realização do torneio, inicialmente, por questões meramente mercadológico-financeiras; 2) somente depois do sucesso e popularidade do certame é que a entidade decide “tomar conta”.

Além disso, é importante lembrar que o título da segunda divisão (ou “Módulo Amarelo”, como queiram) foi DIVIDIDO entre Sport e Guarani: o clube pernambucano, portanto, não ganhou coisa alguma.

Apesar do arrasto legal que dura 30 anos, esse título nunca havia sido considerado de fato do Sport. Foi somente a partir da quinta conquista do São Paulo, que inclusive investiu pesado marketing em camisas e outdoors afirmando ser o “Único Penta”, que isso passa a ser discutido mais ampla e seguidamente.

O Sport, clube de porte entre pequeno e médio, embarcou na festa e até hoje aproveita momentos para criar uma rivalidade imaginária com o Flamengo. E o São Paulo, clube gigante, passou a se apequenar a partir desse momento, sendo comandado por uma diretoria mesquinha que queria a taça das bolinhas e a glória de ser o maior campeão brasileiro, mas se viu num beco sem saída: é o único penta porque a CBF assim o diz, mas é o único tri mundial apesar de a FIFA o negar.

O Flamengo, e somente o Flamengo, é o campeão brasileiro de 1987 e, ele sim, o primeiro “Penta”. Mais que isso, é aquele título conquistado pelo “Maior do Rio” que eleva o Campeonato Brasileiro a um novo patamar.

 

Maracanã, 14 de janeiro de 2000 – 73.000 pessoas
Corinthians 0x0 Vasco (4×3 nos pênaltis)

”Torneio de Verão”

Em meados de 1999 a FIFA anunciava um projeto ambicioso: iria realizar o primeiro “Campeonato Mundial de Clubes”. O torneio iria reunir não apenas os campeões da América do Sul e Europa, como acontecia desde 1960, mas representantes de todos os continentes, seguindo o modelo do Mundial de Seleções regido pela Federação.

O anúncio dos participantes de cara causou polêmica: o Vasco, campeão da Libertadores de 1998, é quem iria jogar o torneio, e não o Palmeiras, vencedor da edição de 1999. Em que pese a indicação dos participantes ter acontecido antes da Final do tradicional torneio sul-americano daquele ano, na verdade o Palmeiras não participou em virtude de um acordo: já era um dos escolhidos para a segunda edição do certame, que aconteceria no verão europeu de 2001. Por razões econômico-logístico-desportivas, isso não aconteceu.

Mas a escolha que mais causou discussão, e até mesmo certa revolta, foi a do Corinthians: o clube paulista foi o selecionado como representante do país-sede. Nada mais natural, uma vez que nenhuma seleção disputa as Eliminatórias quando a Copa do Mundo acontece em seu país.

Além disso, o tempo provaria: o Atlético-MG foi eliminado na semifinal do Mundial de 2013 pelo Raja Casablanca e o Atlético Nacional pararia diante do Gamba Osaka na edição de 2016: ambas as equipes participaram daqueles torneios por serem… campeões da Liga Nacional do Marrocos e do Japão.

E para que não pairem dúvidas: o Corinthians foi bicampeão brasileiro em 1998 e 1999.

A repercussão na imprensa internacional seguiu o release da FIFA, o que corrobora a relevância da conquista no que tange a notoriedade. Por outro lado, é preciso que se corrija e aponte os erros dos torcedores corinthianos, também, quando se trata da polêmica em torno daquela conquista

Baseados só e unicamente no que diz a FIFA, os alvinegros insistem em afirmar que ganharam o primeiro mundial, desdenhando das conquistas inquestionáveis do Santos (1962-63), do Flamengo (1981), do Grêmio (1983) e do São Paulo (1992-93). Se o Corinthians tinha todos os direitos de estar presente naquela competição, igual ou maior mérito tiveram os vencedores das edições anteriores.

O bom jornalista Vitor Birner compara a situação de 2000 com a de 1987. Por tudo que dissemos no tópico anterior deste artigo, a analogia é absurda, primeiro porque não foram disputas simultâneas — quando do título conquistado pelo Corinthians a Libertadores de 2000 sequer havia começado –, e também porque aconteceram em formatos, com critérios e objetivos muito diferentes. Principalmente, a FIFA não exigiu qualquer coisa do clube argentino. O Boca Jrs., inclusive, seria um dos participantes do natimorto “Mundial de 2001”.

Em suma, afirmar que o Corinthians seja o primeiro campeão mundial só não é mais absurdo do que dizer que o clube ganhou o mundo pela primeira vez em 2012.

 

No fundo, os argumentos aqui apresentados provavelmente sejam usados somente a favor dos torcedores desta ou daquela equipe. Quando se tratar do adversário, prevalecerão o ceticismo e a chamada “zoeira”.

Afinal, o torcedor é um apaixonado. E os apaixonados nunca têm razão.

Marcel Pilatti é paranaense. Professor e escritor, é sobretudo um apaixonado por arte e esportes. Na coluna “Resgate”, o autor abordará fatos e personagens que marcaram a história, mas que precisam ser revistos.

 

 

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