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Coluna Resgate – “O maior disco da música brasileira”

É comum que se faça listas, rankings, Top 10’s e afins em se tratando de artistas, atletas, filmes etc. Influência maior dos americanos, tudo parece ter uma necessidade de ser colocado em sequência, como se fosse possível cruzar méritos e determinar qual época ou circunstância tem ou terá mais valor num sentido histórico.

Em se tratando de arte, é uma tarefa ainda mais ingrata, pois o grande valor das produções artísticas está no impacto que elas podem causar na vida pessoal de seu ouvinte/espectador/leitor/apreciador, de uma forma geral. Assim, resta uma linha muito tênue entre a seleção e a injustiça.

Nos últimos anos, foram feitas escolhas dos melhores discos da história da música brasileira. O Estadão, por exemplo, consultou diversos especialistas e apresentou uma lista de 30 discos essenciais, e a partir destes abriu votação popular via internet. A afamada revista RollingStone, por sua vez, elaborou uma lista de 100 álbuns, também convocando músicos e jornalistas da área. Por fim, o historiador Luiz Américo Lisboa Junior elabora uma lista que chama de 100 discos fundamentais.

Em todas as listas, acabam se destacando títulos que poderíamos chamar de “Vacas sagradas”: Elis&Tom, de 1974, Tropicália ou Panis et Circenses, de 1968, Clube da Esquina, de 1972 são algumas delas. Acabou Chorare, dos Novos Baianos, o primeiro dos Secos & Molhados e Construção, de Chico Buarque, além do revolucionário Chega de Saudade, de João Gilberto, são outras unanimidades.

Esses — e outros poucos discos, provavelmente outro da Bossa Nova, mais algum de Caetano… — são aqueles que não se pode contestar, sob o risco de ser considerado burro ou coisa pior. A posição deles pode variar, mas não podem ser excluídos.

Consequentemente, muitas obras igualmente importantes, influentes e genialmente produzidas são deixadas de lado, ou acabam participando dos famigerados rankings a fórceps, numa espécie de “figuração musical”: Roberto Carlos, por exemplo, não tem o devido reconhecimento.

Nenhuma ausência, porém, me chama tanta atenção e me incomoda tanto quanto “Brasileiro Profissão Esperança”.

A magnitude da obra pode ser vista desde sua concepção: seis nomes extremamente relevantes para nossa cultura se reúnem para a realização do histórico projeto: Bibi Ferreira, Paulo Pontes, Clara Nunes, Paulo Gracindo, Antônio Maria e Dolores Duran.

Comecemos pelo começo.

Bibi Ferreira, importante atriz e idealizadora do teatro brasileiro, bem como personagem fundamental para os rumos da TV do país, é quem dirige o show, dando-lhe o tom necessário para casar com as canções a serem apresentadas, e as concepções do canto de Clara e das declamações de Gracindo.

À época, Ferreira foi muito elogiada por sua ousadia e competência. Maria Helena Dutra, colunista de “Veja”, afirma que “todas as intenções da antologia foram habilmente desenvolvidas na direção de Bibi Ferreira, impecável na pontuação e na criação do clima dramático adequado às românticas composições em destaque”.

Décadas depois, ela mesma atuaria no espetáculo. [1]

Paulo Pontes é um dos grandes nomes do teatro nacional, conhecido, principalmente, por assinar o espetáculo “Gota d’Água”, baseado na obra de Chico Buarque. É ele o roteirista do show, intercalando precisa e pontualmente as canções de Duran e Maria entre crônicas e aforismos do pernambucano.

Mário Lago, por exemplo, contou que foi “atendido num Instituto de Cardiologia ao final do show”, e acrescenta: “Na minha concepção, é o mais inteligente e maravilhoso espetáculo que Paulo Pontes já montou e talvez um dos melhores montados neste país”. Chico Buarque é mais direto: “um trabalho inteligentíssimo de Paulo Pontes. Não é preciso dizer nada sobre o espetáculo: é maravilhoso”.

Ferreira e Pontes fizeram as primeiras montagens de “Brasileiro: Profissão Esperança” no Teatro Castro Alves e em palcos menores, com um tom bastante engajado. No início, os atores principais eram Maria Bethânia e Ítalo Rossi. [2]

Dado o sucesso da peça, começa a se imaginar a magnitude que o espetáculo poderia alcançar. De todo modo, seria preciso expandir a produção. Ronaldo Bôscoli, igualmente famoso por sua influência no meio musical e por sua língua afiada, escreve no jornal “Última Hora”: “Brasileiro: Profissão esperança não é nada. Quero ver é ser tudo isso no palco do Canecão”.

E é aí que entram outros dois personagens fundamentais do tema.

Clara Nunes ainda não era “Clara Nunes, a Guerreira”. É a partir deste momento — e aí entra outro grande motivo para que o álbum fosse devidamente valorizado e reconhecido como um dos maiores da história da MPB — que ela vai se tornar uma das maiores cantoras deste país em todos os tempos.

Clara nada deve a Elis Regina, Bethânia ou Gal Costa: possuía um canto poderoso e apaixonado, talvez até mais do que as três. Porém, até a produção deste show, ainda era muito marcada como cantora de sambas. Hildegard Angel, do “Última Hora”, descreve em análise do show: “Importante era ‘descobrir’ Clara Nunes: cantora com força, iluminada e linda. Importante, passou a ser tanta coisa…”.

Bella Stal, do “Jornal do Brasil”, vai além e vislumbra o futuro da intérprete: “Clara Nunes deixa de lado a imagem quase exclusiva de sambista que estava formando nos últimos tempos para mostrar que pode muito mais”.

E podia. Clara alterna momentos de canto intimista com abuso de sua potência vocal, demonstrando rara versatilidade. Suas divisões silábicas e a transmissão da melancolia presente em cada verso são os grandes destaques.

Paulo Gracindo, um dos maiores atores da história deste país — o eterno “Odorico Paraguaçu”, entre outros personagens memoráveis –, contracena com Clara Nunes e realiza algo bastante atípico: dá à declamação o mesmo poder do canto.

Como bem salientou Artur da Távola em sua coluna para “O Globo”, “Paulo Gracindo eleva a arte do dizer a alturas únicas no Brasil. É a palavra voltando a ter status, força e importância”. Gilberto Braga, grande diretor de novelas, atuava como crítico de teatro e também escrevia para “O Globo”. Sobre a atuação de Gracindo, afirmou: “vai do cômico ao trágico em frações de segundo. Até suas pausas comovem.”

Gracindo foi fundamental no andamento do espetáculo, intercalando a leitura de crônicas, com hábil sarcasmo, e adaptações de letras de canções.

A alternância de sua voz e expressão facial é única: em alguns momentos, transmitia fúria e causava compaixão.

A grande cantora e compositora Maysa afirmou, em entrevista à época: “Já assisti ao ‘Brasileiro’ três vezes, aos prantos, não nego. É um espetáculo grandioso, comovente, verdadeiro”.

A opinião da artista, além de ter o peso de quem produziu clássicos no cancioneiro popular, é muito importante pois ela foi contemporânea dos dois nomes centrais do show/disco.

Antônio Maria Araújo de Morais nasceu em Recife e foi um verdadeiro “multitarefas”: era radialista, comentarista esportivo, cronista e também autor de canções.

Desenvolveu amizade próxima com Vinícius de Moraes — é ele quem o apelidou “poetinha” e seria o verdadeiro autor da famosa frase “o whisky é o cachorro engarrafado” –, mas na música seus grandes parceiros foram Fernando Lobo (pai de Edu Lobo), Ismael Neto e Luiz Bonfá.

Com este último, criou a antológica “Manhã de Carnaval”. Composta originalmente para o filme “Orfeu Negro”, o tema se tornaria uma das maiores canções brasileiras, sucesso nacional e internacional.

Dentre outras pérolas do pernambucano, estão “Valsa de uma cidade” — um dos pontos altos do disco, Clara Nunes intercalando os versos “Rio de Janeiro, gosto de você” com geniais inserções de Gracindo –, “Ninguém me ama” e “Suas mãos”.

Por fim, Dolores Duran (nome artístico de Adiléia SIlva da Rocha): a carioca é, talvez, a maior compositora brasileira de todos os tempos.

Cada nome a seu tempo e importância, Duran figura no grupo seleto de mulheres que produziram clássicos imortais da MPB: de Chiquinha Gonzaga a Marisa Monte, passando pela supracitada Maysa, Rita Lee e Adriana Calcanhotto, Dolores é aquela que talvez mais tenha atingido o patamar dos grandes mestres da música brasileira.

Antes mesmo de Vinícius de Moraes, foi ela a primeira parceira de Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o eterno Tom. Da união dos dois, nasceram duas obras-primas: “Estrada do Sol” e “Por Causa de Você”. Esta última, uma história especial: Dolores costumava escrever suas letras na noite, de preferência nos bares/boates que frequentava.

Numa dessas noites, ficou apaixonada pela maestria do pianista do local, e escreveu os versos num guardanapo. Entregou-os a ele e pediu que os musicasse. “A nossa casa, querido, já estava acostumada aguardando você. As flores na janela sorriam, cantavam, por causa de você”.

Mas Dolores não foi apenas letrista: “Fim de caso”, “Castigo” e “A noite do meu bem” são músicas totalmente feitas por ela. Outro clássico, “Ternura Antiga”, receberia a melodia de Jota Ribamar anos depois.

Todas essas obras, presentes no subconsciente coletivo brasileiro, fazem parte do espetáculo tema deste texto. Verdadeiras obras-primas.

***

Dois nomes geniais do teatro produzindo um espetáculo musical de cunho político. Uma cantora excepcional atingindo um novo patamar em sua trajetória. Um ator histórico recolocando a poesia em voga numa indústria comercial. Dois compositores fundamentais tendo suas antologias cruzadas de modo inédito. Esse é o resumo de “Brasileiro: Profissão Esperança”.

Diante de tudo isso, pensei em todas as razões pelas quais tal disco não receba os devidos louvores e não tenha o destaque que merece.

Primeiramente, pensei que por ser um álbum ao vivo não fosse levado em consideração para esses efeitos; mas o FA-TAL, de Gal Costa, é cultuadíssimo.

Depois, pensei que o problema seria o fato de não trazer músicas inéditas, e ser uma espécie de coletânea de sucessos — vantagem óbvia sobre discos saídos “do forno”. Mas aí me lembrei do referido Elis&Tom, que apenas reúne clássicos de Jobim (alguns com Vinícius).

Por fim, tentando me convencer, decidi que o “problema” é ser uma peça de teatro, com roteiro muito mais amplo do que a porção de música do disco.

E então notei a presença constante do famigerado “Opinião”, com Nara Leão, Zé Keti e João do Vale. Em que pese o pioneirismo deste último, o show de Bibi e Paulo Pontes é superior em tudo.

Especialmente, Clara é muito melhor que Nara Leão.

Resulta, portanto, que a ausência do espetáculo protagonizado por Clara Nunes e Paulo Gracindo no Olimpo da MPB se deve à literal ignorância: com o ir dos anos, foi passando despercebido.

O título da peça, na verdade, não deixa de ser uma grandiosa e atemporal ironia: em tempos onde Anitta e Neymar são as maiores referências do país mundo afora, querer resgatar Dolores Duran e Antônio Maria é muita ingenuidade.

Marcel Pilatti. Brasileiro. Profissão: Esperança

[1] Ouça no Spotify a versão de Gracindo Júnior e Bibi Ferreira, em homenagem aos 40 anos do espetáculo.
[2] Ouça no YouTube o áudio do espetáculo em sua montagem original, com Maria Bethânia e Ítalo Rossi.

Marcel Pilatti é paranaense. Professor e escritor, é sobretudo um apaixonado por arte e esportes. Na coluna “Resgate”, o autor abordará fatos e personagens que marcaram a história, mas que precisam ser revistos.

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