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Coluna Resgate – “O melhor do (Ed)Mundo”

Em 2011, após a conquista de uma Libertadores que o Santos FC esperava havia quase 50 anos e de atuações espetaculares no Campeonato Brasileiro, a imprensa brasileira começou a vislumbrar a possibilidade de Neymar ser incluído entre os três melhores do mundo e, não só isso, ser o vencedor do prêmio da FIFA — então dado em conjunto com a revista France Football.

Lobby não faltou — de blogs ditos independentes à capa da revista Veja, passando por editoriais dos principais programas esportivos do país e até mesmo a opinião de alguns grandes ex-craques brasileiros, a “joia” santista era considerado o melhor jogador do mundo. Dizia-se até mesmo que ele poderia dar o Mundial de Clubes para o alvinegro praiano.

No entanto, ao mesmo tempo, já havia um discurso pronto para a (mais do que) provável não inclusão do camisa 11 no Top 3 mundial: o prêmio, na verdade, ignorava o que acontecesse fora da Europa, como a decretar que só o que viesse dali teria valor.

Por motivos óbvios (ou o fato de Messi ter quebrado recordes e protagonizado a quarta Champions League do Barcelona, eliminando o Real Madrid nas semifinais, não era o bastante?), Neymar não foi eleito o melhor do mundo. Ao jovem restou o prêmio de consolação — decidido via voto popular, pela internet — de “gol mais bonito do ano”.

A acachapante vitória do Barcelona sobre o Santos, com atuação bastante discreta da estrela brasileira, serviu pra botar panos quentes no assunto. Mas é impossível não traçar um paralelo com o que acontecera em 1997.

***

Edmundo jogou naquele ano tanto quanto Neymar jogaria, 14 anos depois. Protagonista absoluto do Vasco, foi o grande nome da conquista do terceiro campeonato brasileiro da história do time carioca. Várias de suas atuações foram fabulosas, com destaque para duas partidas em especial.

A primeira delas aconteceu ainda na fase de classificação, diante do União São João (Araras-SP): o Vasco venceu a equipe do interior paulista por 6 a 0, com seis (!) gols de… EdmundoDetalhe: poderia ter sido 7 a 0, todos do “Animal”, mas ele se deu ao luxo de desperdiçar uma penalidade.

O outro jogo mítico aconteceria quase três meses depois, já nas semifinais, diante do maior rival: o Vasco venceu o Flamengo por 4 gols a 1, e Edmundo anotou um hat-trick, com direito a dribles desconcertantes e dancinha debochada.

Foram duas performances geniais, dominantes, incontestáveis. Uma pelo total controle de uma partida, inda que o adversário fosse modesto: era quase uma apresentação solo. A outra, pela frieza e poder de decisão. E em ambas, a plasticidade.

Além de líder e espetacular, o camisa 10 do Vasco foi também o artilheiro, quebrando um recorde que durava 20 anos: se tornava o jogador com maior número de gols em uma mesma edição do nacional. Tudo isso levou a uma afirmação repetida por muita gente: Edmundo foi o melhor jogador do mundo em 1997.

Algumas das pessoas mais próximas do atacante naquele ano têm certeza: é o que dizem, por exemplo, Juninho Pernambucano e o treinador Antônio Lopes. É o que afirma, também, o craque Evair.

Mas não é somente quem conviveu de perto com o Animal que o vê como número 1 do planeta naquele ano: o excelente Paulo Vinícius Coelho enxerga na nomeação do argentino Jorge Sampaoli (então treinador da seleção chilena) como um dos três maiores do mundo em 2015 uma reparação histórica: “A vingança de Edmundo é a indicação de Jorge Sampaoli. O técnico do Chile (…) está entre os três melhores porque o trabalho na Copa América teve repercussão mundial”, afirmou PVC.

Mais agressivo e menos racional do que PVC é Fábio Sormani, que de antemão excluiu Neymar da eleição de melhor do mundo por perceber “preconceito” da FIFA com o futebol brasileiro. Sormani também usa o Edmundo de 97 como exemplo:

A todos eles, some-se a grande torcida vascaína: 10 a cada 10 torcedores do clube carioca celebram aquela temporada de Edmundo como a número 1 do mundo, e o próprio jogador se auto-considera tal. Portanto, uma vez que não são poucos nem irrelevantes os que insistem nessa ideia, nos resta voltar 20 anos no tempo e analisar como foi a temporada de Edmundo e dos principais nomes da premiação de 1997.

Naquele ano, o terceiro lugar foi dividido em dois nomes: Zinedine Zidane e Dennis Bergkamp. O craque holandês recebeu mais votos para primeiro (7 a 2) do que o gênio francês, mas Zizou teve mais escolhas entre os três (22 a 20) comparado ao rival.

Bergkamp jogava pelo Arsenal da Inglaterra e teve uma bela temporada: liderava o time que ganharia a Liga Inglesa na temporada 1997-98, sendo votado o “melhor jogador do mês” no país tanto em Agosto quanto em Setembro.

Zidane brilhou ainda mais: foi o líder incontestável da Juventus campeã italiana na temporada 96-97 e que estava em primeiro no certame seguinte ate o fim do ano, título que seria confirmado. A “Velha Senhora” ainda levou outros títulos — Supercopas da UEFA e da Itália — com participação de Zizou, mas seu ponto alto se deu na afamada Liga dos Campeões.

Assim como Edmundo, a maior atuação de Zidane aconteceu numa semifinal em que seu time venceu por 4 a 1. Também semelhante ao tento de Edmundo contra o Flamengo, o gol antológico que fechou a vitória da Juve, depois de ter comandado a equipe com duas assistências.

Para os dois primeiros lugares, algo inédito — e hoje em dia inimaginável: dois brasileiros. Roberto Carlos (2º) e Ronaldo (1º) foram os mais votados. A favor dos craques brazucas não somente o domínio na Europa, mas também pela seleção.

Roberto Carlos atuava como lateral esquerdo, e para ter sido classificado em tão alta posição, devemos imaginar que tenha atuado em grande nível naquela temporada.

Fundamental para o Real Madrid, naquele ano colaborou imensamente para a conquista do Campeonato Espanhol e da Supercopa da Espanha, além de sacramentar a primeira colocação da equipe na fase de grupos na Champions League. Pela seleção brasileira, conquistou a Copa América e a Copa das Confederações.

Além de grande defensor, era excelente no apoio, e naquele ano produziu alguns gols mágicos. Inesquecível, acima de todos, a falta contra a França no torneio amistoso preparatório para a Copa do Mundo no ano seguinte.

O primeiro lugar foi de Ronaldo. É desnecessário falar muito, bastando lembrar que foi naquele ano que ele recebeu o apelido de Fenômeno.

Pelo Barcelona, terminou a temporada com dois troféus importantes: a Copa do Rei, tendo eliminado Real Madrid e Atlético de Madrid (com um hat-trick sensacional na partida de volta) e a Recopa dos campeões da UEFA, marcando o gol da vitória na final, diante do PSG.

Pela seleção, colecionou os mesmos títulos de Roberto Carlos, mas foi também artilheiro dos torneios, dividindo as glórias com o Baixinho Romário, naquela que, inda que breve, poderia ser a maior dupla de ataque da história do futebol.

No meio do ano, foi vendido para a Internazionale di Milano. À época, sua transferência foi a mais cara da história.

Como então pensar que Edmundo teria sido o melhor do mundo naquele ano? Como justificar sua presença até mesmo entre os três? Dos 4 finalistas, talvez apenas Bergkamp não tenha tido uma temporada tão excepcional, mas não há como comparar com Zidane, Roberto Carlos e, principalmente, Ronaldo.

E o motivo não é “preconceito” com o futebol brasileiro. Na verdade, apesar de ter sido o astro do campeonato nacional, ele não teve uma TEMPORADA em alto nível.

Além do Brasileiro, Edmundo disputou outras três competições relevantes: Campeonato Carioca e Copa do Brasil, pelo Vasco, e a Copa América, pela seleção brasileira.

No torneio nacional, o clube carioca foi eliminado pelo Atlético Paranaense, Edmundo sendo expulso na primeira partida — sem gols — e não participando da segunda. No estadual foi vice-campeão diante do Botafogo, sem marcar gols nas duas partidas, tendo como ponto alto nos 180 minutos uma “rebolada”.

Pela seleção, Edmundo era reserva da dupla “RoRo”, mas foi agraciado com a titularidade na final, depois de polêmica entre Romário e o treinador Zagallo.

O Brasil venceu por 3 a 1. Ronaldo e Edmundo marcaram um gol cada. O Fenômeno receberia o prêmio de melhor jogador do torneio. O Animal, ganharia o troféu “melhor soco”.

Para coroar o ano, Edmundo seria expulso, novamente, na primeira partida da final do brasileiro, diante do Palmeiras, jogo que terminou 0 a 0. Para o jogo de volta, a tradicional “Euricada”: Edmundo é escalado, através do efeito suspensivo.

Mas o placar permaneceu zerado.

***

Um gol em 5 partidas de final e várias expulsões. Pouco, muito pouco, para quem seria o melhor do mundo.

Assim como Neymar iria ao Barcelona e ficaria clara a distância ainda existente entre o futebol brasileiro e europeu, somente agora, depois de 4 temporadas, o brasileiro começando a atingir o patamar dos melhores do mundo, Edmundo também teve a oportunidade de jogar na Europa, pela Fiorentina.

Mas preferiu o Carnaval.

Ele foi, sim, o melhor do mundo. Do mundo carioca.

Marcel Pilatti é paranaense. Professor e escritor, é sobretudo um apaixonado por arte e esportes. Na coluna “Resgate”, o autor abordará fatos e personagens que marcaram a história, mas que precisam ser revistos.

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