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Coluna Resgate – “O rabo de cavalo divino”

O Brasil vencia a disputa das penalidades. Baresi havia chutado por cima do travessão e Taffarel defendeu o chute de Massaro. Agora cabia ao camisa 10 da seleção da Itália converter a sua cobrança para manter vivas as chances da Azzurra de chegar ao título. O italiano manda pra fora. “É tetraaaaaa, é tetraaaaaa, é tetraaaaaa!”, gritou efusivamente Galvão Bueno.

“O cara que perdeu aquele pênalti”. É assim que a imensa maioria das pessoas se lembra de Roberto Baggio. Além de uma tremenda injustiça para com o atleta, por reduzir sua carreira àquela falha, trata-se de um imenso desserviço à história do futebol: Baggio foi um dos grandes jogadores deste esporte em todos os tempos.

Il Divin Codino (traduzindo ao pé da letra, “o rabo de cavalo divino”, como ficaria conhecido nos anos 90) foi um verdadeiro garoto prodígio: sua estreia como profissional aconteceu aos 15 anos, pelo pequeno Vicenza, da terceira divisão. A titularidade viria aos 17 anos, e foi ele o principal responsável por levar a equipe para a Série B depois de quase uma década.

Começava ali uma série de movimentos heróicos de Baggio, deixando sempre uma marca importante por todas as equipes pelas quais passou — razão pela qual, mesmo tendo atuado por 7 clubes, é querido em todos os times onde jogou.

Todas as camisas que Baggio vestiu

Mesmo defendendo um clube pequeno da Itália (uma espécie de Criciúma local), Baggio já era uma realidade nacional. Vence o prêmio Guerin d’Oro — o equivalente à Bola de Prata da PLACAR, no Brasil — como melhor jogador da Serie C1, e fecha acordo com a Fiorentina. Baggio já era, inclusive, especulado na seleção.

No entanto, o sonho se tornaria pesadelo: em 5 de maio de 1985, apenas dois dias antes (!!!) da assinatura do contrato com a equipe de Florença, Baggio sofre uma lesão gravíssima no joelho esquerdo: ele rompe o ligamento anterior E o menisco.

Começava ali o primeiro e maior dos fantasmas que atormentariam a vida profissional de Baggio — com apenas 18 anos arriscando a nunca mais jogar futebol. É nesse período que ele vai se converter ao budismo e passar a encarar as frustrações da vida de modo mais sereno.

Ele revelaria anos mais tarde que nunca mais jogou sem sentir dor.

A recuperação acabou levando mais tempo do que inicialmente previsto — o craque voltaria aos gramados após um ano afastado –, mas a Fiorentina não desistiu de sua joia. Pelo contrário, pagou pela cirurgia e todo o tratamento. Descobriu-se, ainda, que ele era alérgico a anti-inflamatórios! A dor foi tanta que o craque teria confessado a sua mãe preferir a morte.

Baggio faz sua estreia pela Fiorentina, mas não atua muito tempo: dia 28 de setembro de 1986, apenas uma semana depois de sua primeira partida pelo Campeonato italiano, nova lesão. Desta vez, a gravidade foi ainda maior: A operação foi tão delicada que foi preciso fazer um buraco na tíbia (!!) para puxar o tendão, e  seriam necessários 220 pontos no local. Ele ainda perderia 12kg no processo de recuperação.

Sua reestreia — e pela primeira vez podendo ter alguma continuidade — aconteceria em 1987, com a maior parte da temporada já disputada. Seu primeiro gol seria muito simbólico: contra o Napoli de Maradona, em bela cobrança de falta, Baggio empata a partida e salva a Fiorentina do rebaixamento.

E foi contra o mesmo Napoli que ele marcaria aquele que, para muitos, foi seu mais belo gol.

Se, por um lado, sua trajetória na Fiorentina não rendeu títulos, por outro ele teve performances gigantescas, e a equipe chegou perto de conquistar troféus com os quais não sonhava: ele foi artilheiro da Copa da Itália em 1988-89 e levou a Viola à final da Copa da UEFA de 89-90.

Esta decisão, embora fosse seu ápice na Fiorentina, foi também seu momento mais dramático pelo clube: o presidente do clube negociou seu jogador no dia da finalíssima. Mais que a simples venda, o destino: a Juventus, justamente o adversário daquela final!

Houve verdadeiro caos na cidade de Florença naquela noite, com lojas quebradas e a inevitável renúncia do presidente do clube local. Até hoje não se pode falar no nome da Juve para un torcedor Fiorentino.

Em sua primeira partida contra o ex-clube, Baggio se recusa a bater um pênalti, alegando que o goleiro conhecia bem seus truques. Ele acabaria substituído na partida e, quando se encaminhava para o vestiário, veste um cachecol da Fiorentina que havia sido atirado na lateral do campo.

Apesar dos problemas iniciais, sua passagem pela Velha Senhora seria memorável.

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Durante a transferência, acontece a Copa de 1990. Na Itália.

Baggio, então com 23 anos, era reserva, oficialmente. Tendo feito sua estreia após a Eurocopa de 1988, Baggio era querido pela torcida, mas mesmo assim participaria somente de 5 das 7 partidas da seleção, 4 delas desde o início.

Seu primeiro gol aconteceria na terceira rodada, e seria decisivo: com ele, a Itália confirmava a primeira colocação no grupo, já que tinha 1 ponto a menos que o adversário.

Mais que a importância, porém, a beleza: em votação promovida pela FIFA antes da Copa de 2002, o tento de Baggio foi considerado o sétimo mais bonito da história das Copas.

No entanto, apesar da importância de Baggio (tanto nas oitavas quanto nas quartas teve gols erroneamente anulados e deu passes para os gols de Schilacci) e da opinião da torcida, o técnico Azeglio Vicini não quis escalá-lo para a semifinal contra a Argentina. Em entrevista, afirmou que Baggio estava “muito cansado”.

Começava ali o segundo grande fantasma da carreira de Baggio, e que o impediria de ter sequências mais longas nas equipes que defendia — seu relacionamento com treinadores.

Baggio entrou no segundo tempo da semifinal, e quase fez o gol da vitória.

Mas a seleção seria eliminada. Na decisão de terceiro lugar, ele foi titular e marcou o primeiro gol de sua equipe. Depois, fez a jogada que resultou no pênalti que daria a medalha de bronze aos italianos.

Ao final do ano, Baggio apareceria pela primeira vez na lista da Bola de Ouro (oitavo lugar).

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Após a Copa, Baggio inicia sua linda trajetória na Juventus, e marca seu primeiro gol logo na estreia: novamente diante do Napoli de Maradona, outra vez de falta.

Mais importante do que ser o principal marcador da equipe por 4 temporadas consecutivas, Baggio daria à Juve grandes glórias. A maior delas, certamente, o título da Copa da UEFA na temporada 1992-93.

Baggio conduziu a equipe naquela conquista de forma incontestável: foram 5 gols em três jogos na semifinal e final.

Tudo isso lhe renderia a Bola de Ouro da France Football e o Prêmio da FIFA de Melhor do Mundo ao final de 1993. E era assim que Baggio chegava aos EUA naquele tórrido verão de 1994: o maior jogador de futebol do planeta.

Não apenas pelo prêmio: ele era, ao lado de Diego Maradona, a estrela que os americanos queriam ver. Romário, por mais craque que fosse, não chegava com esse status — assim como Hagi ou Stoichkov, os dois outros grandes nomes daquela Copa.

A cantora Madonna era fã declarada do italiano

O rabo de cavalo divino correspondeu: apesar de uma primeira fase conturbada — chegou a ser substituído no jogo com a Noruega e se desentendeu com o treinador Arrigo Sacchi –, no mata-mata a Itália foi apenas Baggio: marcou os dois gols da vitória sobre a Nigéria, nas oitavas, fez o gol de desempate contra a Espanha, nas quartas, e teve atuação ÉPICA na semifinal diante da Bulgária, praticamente matando o jogo ainda no primeiro tempo.

Porém, Baggio foi substituído na metade da segunda etapa daquela partida: ele havia sofrido uma lesão na coxa. O camisa 10 não estava em totais condições, mas jamais deixaria de jogar a final. Foi ao sacrifício no sacrifício.

O fim dessa saga a gente já sabe.

Naquele ano, Baggio seria escolhido o terceiro melhor do mundo.

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Depois da Copa de 1994, os dois fantasmas de Baggio se unem na Juventus: ele se lesiona, ficando meses fora, e o novo técnico, Marcelo Lippi, declara abertamente que queria “tornar a Juve menos Baggio dependente”.

No entanto, mesmo contra sua vontade, Lippi teria de admitir: Baggio classifica a Juve para Mais uma final europeia (marcou nas duas semifinais) e decidiu o italiano para a Juve — foram três assistências na vitória sobre o Parma.

Aquele era o adeus do camisa 10 à “Velha Senhora”: título nacional depois de 9 anos de jejum. Mesmo estando muitas partidas fora, Baggio seria considerado o 5º melhor do mundo em 1995.

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Baggio sai da Juventus e inicia uma peregrinação por clubes italianos: seu primeiro destino foi o Milan, para muitos o maior da Itália. Mas a junção entre o melhor jogador italiano e a melhor equipe não deu muito certo.

É verdade que Baggio foi fundamental na conquista do campeonato nacional (seria escolhido o melhor jogador pela opinião popular), mas as lesões, e principalmente as divergências com os treinadores, o fizeram menor do que sua história no futebol merecia.

O retorno de Arrigo Sacchi — que decidiu parar de convocar Baggio para o escrete nacional, sequer chamando-o para a Eurocopa — seria a gota d’água: Baggio deixa o Milan e vai para o pequeno Bologna (uma espécie de Ponte Preta da Itália), e lá ressurge: foram 22 gols no campeonato italiano, atuações milagrosas, e o retorno o para a seleção em 1997.

Sua Copa em 1998 foi excelente: ele contribui fundamentalmente na partida de estreia, dando uma assistência impressionante para Vieri e marcando o gol de empate nos minutos finais, naquele que se revelaria o jogo do primeiro lugar do grupo. Depois, mais um passe milimétrico para gol na segunda partida e outro gol no último minuto da terceira partida — se tornando o italiano com mais gols em Copas!

Infelizmente viria a eliminação, mas Baggio, que entrou no segundo tempo, por muito pouco não anotou o gol de ouro diante da França. Zidane disse, depois da partida: “Baggio na reserva é algo que jamais irei entender”.

A bela apresentação de Baggio no Mundial lhe rendeu um contrato com a Inter de Milão, onde ele faria parceria com Ronaldo Fenômeno. O brasileiro se mostrou bastante contente com a chegada do craque: “Ele é fantástico. Eu joguei com muitos grandes jogadores, mas ninguém é como ele, muito inteligente, uma grande pessoa, e um jogador muito forte”.

Em campo, a parceria proporcionaria momentos memoráveis, mas não renderia grandes conquistas: tanto Ronaldo quanto Baggio passariam por lesões: o camisa 9 sofreria sua terrível lesão em Novembro de 1999, e caberia a Baggio comandar a equipe dali pra frente.

No final do italiano daquela temporada, Baggio tem atuação genial, classificando a equipe para a Champions League em jogo extra para decidir a vaga na maior competição europeia.

No entanto, aquele seria seu adeus à Inter: o novo treinador seria seu desafeto Marcelo Lippi.

Baggio vai então ao pequeno Brescia (uma espécie de Paysandu da Itália) para fechar sua carreira. Lá, ele se torna imortal no coração dos fãs: um clube que ano sim ano também era rebaixado, agora atingia a oitava, sétima colocações.

Mais que isso, a magia: Baggio ganharia o Guerin d’Oro, eleito o melhor jogador do campeonato italiano, e ainda receberia voto para a Bola de Ouro em 2001, fazendo gols absurdos nos jogos mais importantes.

Pep Guardiola, ídolo e astro do Barcelona, ao findar seu contrato com a equipe catalã, surpreende o mundo e assina com o Brescia. Por que? Para poder jogar com Baggio. “Eu joguei com muitos craques, Romário, Stoichkov, Koeman, Laudrup, Ronaldo, mas nunca vi alguém como Baggio. Cresci com o mito Baggio, então quando a proposta surgiu eu não hesitei em aceitá-la”.

Baggio tinha tudo para jogar a Copa de 2002, mas… nova lesão no joelho — desta vez no direito, rompendo os ligamentos — o deixa fora doz gramados na hora decisiva. Ele chega a retornar a tempo do mundial — 5 semanas antes, para ser mais preciso — mas o técnico da seleção, Giovanni Trapattoni, opta por não convocá-lo: “não posso me arriscar”, disse.

O camisa 10 joga mais duas temporadas pela equipe, e é convocado para um jogo de despedida pela seleção italiana em 2004. O treinador, o mesmo Trapattoni de 2002, faz a mea culpa: “ele é um dos maiores camisas 10 da história do futebol. Ele deixou sua marca no esporte, não apenas na Itália. Sem as lesões, ele seria ainda maior”.

Baggio finalmente diz adeus ao futebol em 2004, aos 37 anos.  O adversário? O Milan. O local? O estádio San Siro. Baggio é aplaudido de pé por 80 mil pessoas.

“Nos últimos anos de Brescia, eu tinha dificuldades para andar por dois dias depois de cada partida. Quando eu chegava em casa, eu não conseguia sair do carro. Eu tinha que colocar um pé no chão e ir mancando até a porta. No domingo seguinte, eu jogava de novo. Cheio de analgésicos, mas eu jogava”, disse Baggio em entrevista.

Ele finalmente poderia descansar. O Brescia? Caiu para a segunda divisão no ano seguinte.

***

Carlo Mazzone, seu último técnico, declarou: “Baggio foi o melhor camisa 10 italiano, melhor que Meazza e Boniperti, e está entre os maiores de todos os tempos, logo abaixo de Pelé e Maradona, talvez Cruyff. Não fossem tantas lesões, ele poderia ser até mesmo o melhor de toda a história”.

Exagero? Talvez. Mas fato é que, em eleição promovida pela FIFA ao final de 2000, Baggio foi o quarto colocado na votação de “Melhor Jogador do Século”, atrás dos citados Maradona e Pelé e, em vez do holandês, de Eusébio.

Outra votação, antes da Copa de 2002, colocou Baggio naquela que seria a seleção de todas as Copas — Pelé e Maradona mais uma vez polarizaram os votos. Por fim, no ano de 2003, foi ele o primeiro jogador a receber o prestigiado “Golden Foot”, numa eleição em que seus concorrentes eram Zidane e Romário, entre outros.

Baggio foi o primeiro a receber o “Golden Foot”

Mas… E aquele pênalti?

Roberto Baggio cobrou, ao longo de sua carreira, um total de 127 penalidades. Destas, converteu 108, o que equivale a 85% de acerto. Um coeficiente altíssimo. Para se ter uma ideia, o Rei Pelé errou 24 cobranças em sua vida, tendo chutado menos vezes que Baggio.

Pela seleção italiana, Baggio bateu 10 pênaltis, metade deles em Copas do Mundo. Seu único erro foi justamente aquele da Final de 1994. “Perdeu logo quando não podia perder”, alguém dirá. Na verdade, Baggio jamais cobrou um pênalti em Copas que não fosse de suma importância e que não trouxesse gigantesca pressão sobre seus ombros.

Na Copa da França, uma penalidade extremamente tensa: logo na estreia da Itália no torneio, diante do forte Chile — Sierra, Salas e Zamorano. Os Sul-Americanos venciam a partida até os 40 do segundo tempo. Indo para a cobrança, ele é xingado por adversários. Com um chute forte à meia altura no canto direito do gol, ele converte.

Esse pênalti foi tão simbólico que gerou um bonito comercial da marca Johnnie Walker, cujo slogan é “Keep Walking” — literalmente, “siga caminhando”, ou “continue tentando”.

Nos 4 pênaltis convertidos, uma semelhança: ele não batia alto. Por que, então, bater daquela maneira na final?

Baggio explicou que o cansaço só lhe dava uma opção: bater com força. “Eu conhecia o estilo do Taffarel nas cobranças, e sabia que ele iria escolher um canto. Então, eu só queria colocar a bola no alto, para que ele não tivesse chances”.

Mas a bola foi alta demais. Baggio, em sua serenidade budista, disse: “Nunca havia cobrado um pênalti por cima do gol. Acho que foi o (Ayrton) Senna que puxou aquela bola para o alto. Acredito que foi ele que fez o Brasil vencer”.

***

Quando, em 1994, Ayrton Senna foi chamado a dar o pontapé inicial na partida Seleção brasileira vs Paris Saint-German, ele conversou com Parreira e soltou essa frase: “esse ano não tem como: pelo menos um de nós vai ser tetra”.

Ao errar “aquele pênalti”, portanto, Baggio honrou seu apelido: ele cumpriu uma missão divina.

 

Marcel Pilatti é paranaense. Professor e escritor, é sobretudo um apaixonado por arte e esportes. Na coluna ‘Resgate’, o autor abordará fatos e personagens que marcaram a história, mas que precisam ser revistos”.

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