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Coluna Resgate – O “We are the World” brasileiro

O ano era 1985. Em um período onde o avanço das tecnologias era constante e a globalização aos poucos se tornava realidade, começavam a surgir alguns movimentos pedindo por mudanças no estados das coisas. O muro de Berlim seria derrubado ao final daquela década e o Apartheid ainda levaria 9 anos para ser abolido, mas pequenas revoluções poderiam partir dos indivíduos, como ensinou Gandhi.

Uma dessas iniciativas aconteceu nos Estados Unidos e contou com a participação dos maiores nomes da música pop mundial da época. Encabeçados por Michael Jackson e Lionel Richie (os compositores da obra), o grupo de artistas regidos pelo genial Quincy Jones contava com monstros sagrados como Stevie Wonder, Bob Dylan e outros nomes de peso.

A voz suave do rei do pop predomina, mas há espaço para todos. O propósito era arrecadar o máximo possível para ajudar o continente africano a amenizar a devastação causada pela fome.

No Brasil, também era uma época de novos ventos: o fim dos governos militares e a subsequente eleição (indireta) de Tancredo Neves enchem o país de esperança. Mas a morte do político e a transição para o governo Sarney cobriram a esperança com medo e incerteza.

Como uma espécie de sinal da natureza, em abril daquele houve tempestades sem precedentes na região nordeste. Milhares de desabrigados, com fome, doentes e sedentos. Então baseados na ideia de We Are The World, e seguindo o modelo à risca, as estrelas da música popular brasileira se reuniriam para gravar a canção “Chega de mágoa”

Com uma tiragem inicial de 500 mil, o compacto seria vendido em todas as agências da Caixa Econômica Federal, patrocinadora do projeto, e o resultado das vendas seria doado aos irmãos nordestinos.

O Sindicato dos Músicos, que assumiu a coordenação da produção do disco, convocou 155 cantores e instrumentistas para três sessões de gravação em um estúdio na Barra da Tijuca. O maestro Dori Caymmi foi escolhido para escrever o arranjo e reger a orquestra e o coro.

A contracapa do compacto

Sobre a composição: a música foi feita por Gilberto Gil. A melodia começava como marcha-rancho e virava um reggae animado. A letra foi iniciada pelo baiano e completada por Chico Buarque e Milton Nascimento, contando com palpites de Djavan, Fagner e Erasmo Carlos. No entanto, como pedia a época e era a alma do projeto, optou-se por creditar a canção a uma “criação coletiva”.

rabiscos de Gil, Chico e Milton

Como foi feita a divisão no canto: Apesar da imensa quantidade de artistas, decidiu-se que os solos deveriam ser dos nomes mais populares no momento, já que o objetivo final era atrair o maior número de compradores para o disco.

Conforme  descrição de Nelson Motta, no livro “Vale Tudo“, a biografia de Tim Maia:

Sem maiores controvérsias, foram escalados Antônio Carlos Jobim, Milton Nascimento, Rita Lee, Gal Costa, Djavan, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Fagner, as duplas formadas por Elba Ramalho e Gonzaguinha, Caetano Veloso e Simone, Chico Buarque e Fafá de Belém e Roberto e Erasmo Carlos, com Elizeth Cardoso representando a velha guarda e o duo Paula Toller, do Kid Abelha, e Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, a ala jovem. E, naturalmente, Tim Maia.

O Contraste com o coro americano vai residir justamente no fato de que — embora lá timbres marcantes como os de Bruce Springsteen e Cyndi Lauper roubassem a cena em momentos chave da canção — na versão brasileira uma voz destoa e de fato toma conta da gravação.

Novamente citando Motta:

Mal acabava o primeiro verso e uma voz de trovão estremecia o estúdio com uma fulminante frase de resposta. Daí para diante só deu Tim Maia, que tomou conta da gravação, respondendo à la Motown, com gritos e yeahsyeahs, a cada frase cantada pelos colegas, durante toda a parte final da música. Nenhuma voz é mais ouvida, mais vezes ou mais alto do que a dele.

Sem mais delongas, aí vai o vídeo desta obra-prima esquecida do cancioneiro nacional:

 

Relembrar essa gravação e esse momento singular da música brasileira, na verdade, só faz trazer tristeza: de um lado, por percebermos que, passados mais de 30 anos, o Nordeste (e o país, de modo geral) segue refém de tragédias naturais que, embora inevitáveis, poderiam ser amenizadas caso houvesse vontade política e mobilização social efetivas para tanto.

Por outro, a decepção é mesmo na área musical: você já imaginou o que aconteceria se juntássemos os “nomes mais populares no momento”? Melhor nem pensar.

Que 2018 nos traga novos ares.

Marcel Pilatti é paranaense. Professor e escritor, é sobretudo um apaixonado por arte e esportes. Na coluna ‘Resgate’, o autor abordará fatos e personagens que marcaram a história, mas que precisam ser revistos”.

 

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